Daqui de cima
Posted: March 3rd, 2010 | Author: lanusse | Filed under: Textos | No Comments »Ela estava linda naquele dia de multidão e feriado. Cheia de óculos, como eu gosto. Deixava aquele ar, eu sou melhor do que você. Eu sei.
Ela estava linda naquele dia de multidão e feriado. Cheia de óculos, como eu gosto. Deixava aquele ar, eu sou melhor do que você. Eu sei.
O tempo deita na rua e deixa os outros passarem.
Vamos lá, ele diz. Pra onde, ela responde sem perguntar.
…
Investigo o pôr-do-sol, mas ele sempre me responde com um sorriso amarelo, daqueles mais belos…
Sem demonstrar vontade própria, a vida nos acaricia o peito. Nisso se encontra todo o sossego.
Comeu um tempurá de flor-de-lótus e ficou mareado, sem esperar.
Tem problema não: poesia de vida que é boa, dá jeito em tudo.
- Devo a ela minha redenção.
- Deve não…
A completa anarquia interior ainda é o melhor remédio.
As laranjas-cravo do meu quintal florescem em pés-de-canela dos mais antigos.
Inigualáveis, já nascem perfumando a brisa, sem pedir permissão.
A verdade lá, a falta de dúvidas aqui.
E nesse beijo bom, o barulho do papel amassado impera.
O meu mundo dói nos outros e talvez um pouco mais em mim. Na agressividade inerente, o cheiro acolhedor de outros tempos: “If you have the courage to touch life for the first time, you will never know what hit you.”
Não tenho mais opiniões significativas. Tenho ruídos vazios, sem quês, nem porquês.
- Quando a vida se vai, o sabor vai junto?
Se uma árvore cai na floresta e ninguém está por perto para ouvir, ela produz som ou não?
- Não importa!
O sentir do sentar, o sabor do café, o cheiro do dormir.
A clareza só é possível àqueles que não têm conclusões.
O som e a poeira do ar-condicionado avisam que mil budas nascem e morrem a cada milésimo de segundo, não importa onde.
- E que viver é perceber que qualquer coisa não passa de um koan…
- O cheiro da laranja-cravo…
O espaço do ser sempre soube.
Felicidade? Perguntaram-me por telefone mas preferi deixar quieto. É que tudo na vida foi feito para não ser levado a sério.
Temporário, impermanente, interdependente… o limão é azedo, a laranja é doce.
- Não se agarre, my dear…
Permitir ao tempo passar sobre sua quietude inerente: rio parado deixa os peixes com cãibra.
Um sorriso ao menos. Um olhar ao lado.
Tanto por tão pouco. Parece.
Mas não é.
Jacaré sem calda não tem bicho de pé.
Certas situações cansam e parecem que não acabam nunca. Sobra o tempo, a vontade, algumas borboletas na barriga e a mente na imensidão. E daí?
- Quando eu me for, essa certeza vai me acompanhar?
- Se você aprender a esperar, monge, a espera se transforma na sua resposta.
-…
Quando tomo chá, eu sou a xícara, eu sou o chá… mas mesmo assim, há uma verdade maior: eu queria muito ter uma almofada doce, igualzinha ao teu colo.
Sexta, sábado, quarta, quarto de manhã.
Manoela sorri, olhando o dia, em um desencanto feliz.
Se fosse diferente seria melhor?
Se ainda fosse, mas não.
Toda pergunta é sem resposta.
Uma beleza só.
Ele abre a boca e mostra o coração.
Não tem comparação. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é.
- Ele perguntou o que eu achava e eu respondi.
- A verdade?
- Não. Algo ainda mais importante.
- …
O saxofone soa como um pato e o trompete como um ganso.
Nem sempre é assim
Os bons livros
Queimam devagar no inverno
Minha vida desmorona em um sorriso: cada vez menos pra ver, cada vez menos para qualquer coisa.
More is less, they say. And I agree in disagreement.
No fundo é tudo igual.
Penso em você
O som dos meus dedos no teclado
Não tem um lugar para morar
Chove lá fora
Uma caneta descansa
No frio do ar-condicionado
Ela escorre pela esguia fresta inconsolada.
Ele não se importa.
…
Ao pisar no chão de pedra com salto alto, cócegas dentro do nariz.
Quando o vento frio matinal soprou assustando o gato cinza espreguiçado sobre a cama, o velho monge amarelo, sentado de pernas cruzadas no chão, não se mexeu.
Amanhecia pela janela aberta do quarto, e a luz que por ela entrava não pedia permissão para alisar os móveis de madeira descascada, o tapete puído que servia de brinquedo a gatos, e o chão acolhedor acostumado a monges amarelos. Coleava entre os objetos presentes e apenas era.
O silêncio daquela madrugada de meditação, transformando-se em dia, recebia objetos, luzes e monges em meditação da mesma maneira.
Respirar é preciso, imaginar não é preciso.