Lomo blue
Posted: July 1st, 2010 | Author: lanusse | Filed under: Textos | No Comments »- E o amor?
- O que é que tem?
-…
Algumas palavras não tem ossos na língua.
- E o amor?
- O que é que tem?
-…
Algumas palavras não tem ossos na língua.
Minhas convicções não são feitas de açúcar. São feitas de algo ainda mais efêmero, flexível e aconchegante.
…
Quanto mais se perde, mais se existe. Quanto mais medo, mais verdade.
Nem toda a certeza do mundo importa.
Certo de que o tudo e o nada são pontos de vista absoletos, ele espera.
- Todos os fenômenos são feitos de flor. Todos os fenômenos são feitos daquele espaço acima do oceano numa tarde de sábado…
- Até o eu?
- Não. O eu é feito de algodão doce… mas no fundo dá no mesmo, monge.
- …
Nenhuma coisa em especial e todos os momentos ao mesmo tempo: a melhor postura de yoga é elevar os cantos da boca em direção ao céu.
Depois da tempestade, o depois.
Sem se preocupar com o chegar, você percebe que nunca saiu.
O laranja do tempo não enobrece ninguém, muito menos a poeira acumulada do conhecimento alheio.
- A folha cai, a grama cresce, a água aveluda a pedra. Onde está o problema?
Trovão, orvalho, e nesse exato momento, o barulho do ar-condicionado…
Nada é certo
As coisas nascem para dançar
E grudam seus significados da boca
De quem tem o que fazer.
Como todo entardecer de terça-feira que se preze, chove ali.
E aqui um gosto de pasta de dente atenua.
Não acredito em arte, trabalho ou plaquinhas explicativas.
Acredito no barulho do vento, em você.
Acredito em boa vontade, bem querer.
E só.
Imperfeitos, impermanentes, incompletos: meus dias são puros poemas de céu e terra.
- Você nunca mais me disse nada, monge…
- …
Ao ouvir sua voz interior, esqueça-a.
Ela estava linda naquele dia de multidão e feriado. Cheia de óculos, como eu gosto. Deixava aquele ar, eu sou melhor do que você. Eu sei.
O tempo deita na rua e deixa os outros passarem.
Vamos lá, ele diz. Pra onde, ela responde sem perguntar.
…
Investigo o pôr-do-sol, mas ele sempre me responde com um sorriso amarelo, daqueles mais belos…
Sem demonstrar vontade própria, a vida nos acaricia o peito. Nisso se encontra todo o sossego.
Comeu um tempurá de flor-de-lótus e ficou mareado, sem esperar.
Tem problema não: poesia de vida que é boa, dá jeito em tudo.
- Devo a ela minha redenção.
- Deve não…
A completa anarquia interior ainda é o melhor remédio.
As laranjas-cravo do meu quintal florescem em pés-de-canela dos mais antigos.
Inigualáveis, já nascem perfumando a brisa, sem pedir permissão.
A verdade lá, a falta de dúvidas aqui.
E nesse beijo bom, o barulho do papel amassado impera.
O meu mundo dói nos outros e talvez um pouco mais em mim. Na agressividade inerente, o cheiro acolhedor de outros tempos: “If you have the courage to touch life for the first time, you will never know what hit you.”
Não tenho mais opiniões significativas. Tenho ruídos vazios, sem quês, nem porquês.
- Quando a vida se vai, o sabor vai junto?
Se uma árvore cai na floresta e ninguém está por perto para ouvir, ela produz som ou não?
- Não importa!
O sentir do sentar, o sabor do café, o cheiro do dormir.
A clareza só é possível àqueles que não têm conclusões.
O som e a poeira do ar-condicionado avisam que mil budas nascem e morrem a cada milésimo de segundo, não importa onde.
- E que viver é perceber que qualquer coisa não passa de um koan…
- O cheiro da laranja-cravo…
O espaço do ser sempre soube.
Felicidade? Perguntaram-me por telefone mas preferi deixar quieto. É que tudo na vida foi feito para não ser levado a sério.
Temporário, impermanente, interdependente… o limão é azedo, a laranja é doce.
- Não se agarre, my dear…
Permitir ao tempo passar sobre sua quietude inerente: rio parado deixa os peixes com cãibra.
Um sorriso ao menos. Um olhar ao lado.
Tanto por tão pouco. Parece.
Mas não é.
Jacaré sem calda não tem bicho de pé.
Certas situações cansam e parecem que não acabam nunca. Sobra o tempo, a vontade, algumas borboletas na barriga e a mente na imensidão. E daí?
- Quando eu me for, essa certeza vai me acompanhar?
- Se você aprender a esperar, monge, a espera se transforma na sua resposta.
-…
Quando tomo chá, eu sou a xícara, eu sou o chá… mas mesmo assim, há uma verdade maior: eu queria muito ter uma almofada doce, igualzinha ao teu colo.
Sexta, sábado, quarta, quarto de manhã.
Manoela sorri, olhando o dia, em um desencanto feliz.
Se fosse diferente seria melhor?